João Pedro Reis 4026, Deputado Federal por Minas Gerais

O primeiro mundo

“Uma casa sem reboco nas paredes. Sem cerâmica no chão. O plástico do saco de arroz protegendo o caderno.”

O segundo mundo

“Uma mansão na Pampulha. Dez carros. Motorista. Piscina. Discussões sobre arte, cultura e política.”

O mesmo menino. Dois mundos.

A história de João Pedro Gomes dos Reis, 28 anos, nascido em Venda Nova, Belo Horizonte - contada em 16 capítulos.

01

1997, Venda Nova, Belo Horizonte

Começou num beco sem saída. Escolheu não tratar isso como destino.

Foto: Bairro Lagoa, Venda Nova

João Pedro Reis nasceu em novembro de 1997, numa madrugada, em Venda Nova. A mãe tinha 16 anos. O pai trabalhava como cobrador de ônibus. A casa era de primeiro andar, sem reboco, num beco sem saída no Bairro Lagoa.

A avó que o criou sustentava a casa com a aposentadoria. A mãe complementava com o que dava. Uma comprava o arroz e o feijão, a outra comprava a fruta e o biscoito. Faltava dinheiro, mas nunca faltou combinação.

Quando ele tinha seis anos, o pai foi trabalhar fora do país e não voltou. A casa passou a ser feita de três gerações de mulheres e um menino que entendeu cedo que ajudar não era favor, era parte.

Ele não herdou sobrenome nem estrutura. Herdou o hábito de resolver o que aparece.
02

Os primeiros anos

Um quintal pequeno virou o primeiro laboratório de ideias grandes.

Foto: quintal da infância

O padrinho, bombeiro militar aposentado, era a régua da rotina: almoço às 11h, jantar às 18h, camisa social, chinelo e um relógio antigo que apitava ao meio-dia. Rotina, no meio de tanta instabilidade, era uma forma de cuidado.

O quintal tinha goiaba, acerola, cana, limão, bananeira e urucum. Ali João Pedro cavava a terra procurando petróleo para tirar a família do aperto, transformava cabo de vassoura em lança e inventava expedições inteiras entre duas árvores.

Aos domingos a família se reunia em volta de uma mesa simples. Frango assado, refrigerante de laranja, todo mundo junto.

Em 2008 ele perdeu, no mesmo ano, o padrinho e a avó. Tinha 11 anos. A infância encurtou, mas o que aprendeu naquele quintal ficou: com pouco também se constrói.

Ele não achou petróleo no quintal. Achou a certeza de que dá para fazer muito com pouco.
03

A formação do olhar

Circulou entre dois Brasis e transformou o contraste em pergunta, não em mágoa.

Tias dele trabalhavam como empregadas domésticas em casas tradicionais de Belo Horizonte e o levavam junto. Ele entrava num mundo com piscina, motorista, garagem cheia e conversas sobre arte, ciência e política.

Voltava para uma casa onde a conversa era sobre a conta de água e o material escolar. Ele não guardou revolta. Guardou uma pergunta que nunca mais soltou: por que a distância entre esses dois mundos é tão grande?

Foi acompanhando uma dessas casas que assistiu de perto à sua primeira carreata política, apertado numa Kombi, atravessando a cidade inteira de olhos abertos.

A conclusão que ele tirou dali é a base do projeto: não se trata de tirar de quem tem, e sim de fazer quem tem menos ganhar mais, com menos esforço e mais tempo de vida.

Por que o mundo é assim? A candidatura é a tentativa madura de responder a uma pergunta de criança.
04

O Bairro Lagoa

Campo de terra, catequese, escola pública e a rua como primeira escola de convivência.

Foto: rua comercial do Bairro Lagoa

O campo do bairro era o centro do mundo. Ali ele jogou bola, aprendeu a andar de bicicleta na rua, fez catequese na igreja do bairro e estudou em duas escolas estaduais da região.

A rua comercial do bairro era o eixo de tudo: biscoito comprado a granel, vizinhos que se conheciam pelo nome, asfalto pintado em ano de Copa e comemoração coletiva quando o time ganhava.

Correr até a casa do padrinho imaginando ser um super-herói veloz era brincadeira. Também era treino de uma ideia que ficou: chegar rápido onde é preciso chegar.

05

2008, o ano da virada

Aos 11 anos assumiu a casa para que a mãe pudesse trabalhar. E deu conta.

Foto: Aeroporto da Pampulha

Com a perda dos dois pilares da família no mesmo ano, tudo mudou. A família passou cerca de dois anos no interior, na cidade natal da mãe. Ele se destacou na escola pública de lá, virou frequentador da biblioteca municipal e, de manhã cedo, chegou a colher café por poucos reais o saco.

De volta a Belo Horizonte, a mãe trabalhou como faxineira até conseguir um emprego fixo com carteira assinada num serviço de táxi aéreo, no Aeroporto da Pampulha. Um salário mínimo com benefícios foi uma conquista da casa inteira.

João Pedro ficava com as irmãs: comida, remédio, dever de casa, compras. Às vezes passava o dia no aeroporto com a mãe, vendo aviões decolarem e gente chegando de todo lugar.

Não foi um peso que o quebrou. Foi a responsabilidade que o formou.

A mãe trabalhava para que ele pudesse sonhar. Ele cuidava da casa para que ela pudesse trabalhar.
06

14 anos, Venda Nova

Organizou um abaixo-assinado, foi à prefeitura e conseguiu os quebra-molas da rua.

Aos 14 anos começou a trabalhar numa loja de motos e consórcios da rua comercial do bairro. Comissão por venda. Aprendeu a abordar, a explicar, a insistir e a ouvir não sem desistir.

A rua era movimentada e perigosa. Em vez de reclamar, ele organizou: passou comércio por comércio recolhendo assinaturas, explicou o problema, montou o documento e protocolou na prefeitura. Tempos depois, os quebra-molas foram instalados.

Foi ali que ele descobriu o mecanismo que usa até hoje: gente organizada faz o poder público se mover.

O primeiro ato político dele foi um abaixo-assinado por quebra-molas. E funcionou.
07

Ensino médio, escola estadual

Fundou o grêmio estudantil e escolheu um caminho mais difícil de propósito.

Foto: escola estadual em Venda Nova

No ensino médio fundou o grêmio estudantil da escola estadual onde estudava. Passou a ocupar o tempo conversando com a direção, percorrendo as turmas, organizando pauta e participando de atos no centro da cidade. Foi convidado a integrar a associação metropolitana de estudantes secundaristas.

As notas caíram um pouco, e a escolha foi consciente. Ele fez a conta: ao completar 18 anos poderia obter o diploma por certificação e entrar na universidade. Foi exatamente o que fez, prestou a prova e conseguiu o certificado.

Não foi desistência. Foi estratégia de quem já sabia onde queria chegar e não tinha tempo a perder.

08

16 anos, serviço voluntário

Descobriu, servindo, que a menor ação bem feita muda a vida de alguém.

Foto: visita a asilo, Natal solidário

Aos 16 anos foi convidado a integrar uma organização juvenil de serviço. Assumiu a função de hospitaleiro, responsável pelos projetos sociais e pelo cuidado com os integrantes.

Coordenou campanhas de Natal solidário: arrecadação de fraldas, alimentos e presentes para asilos e creches comunitárias, com visitas mensais aos idosos, almoço junto, conversa, tempo.

Numa dessas tardes passou horas ouvindo música antiga com uma senhora. No fim, ela chorou, abraçou e disse que fazia décadas que não escutava aquelas canções. Nada ali custou dinheiro.

A lição virou tese: se algo tão simples tem esse efeito, imagine o alcance possível com estrutura, recurso e mandato.

Se um pouco muda tanto, quanto é possível mudar com mais alcance?
09

18 anos, Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Acordava às 4h30, ia a pé para a Assembleia e aprendeu o Legislativo por dentro.

Foto: Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Aos 18 anos assumiu a Secretaria Estadual de Comunicação da juventude do partido e foi indicado para um estágio no gabinete de um deputado estadual na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Começou estagiário, virou assessor e ficou cerca de dois anos.

A rotina era essa: 4h30 de pé, dois ônibus até a faculdade, aula de manhã, caminhada até a Assembleia porque não sobrava dinheiro de passagem, trabalho à tarde e à noite, saída às 23h30, chegada em casa depois da meia-noite.

No gabinete redigiu projetos de lei, acompanhou comissões e plenário, cuidou de emendas parlamentares e atendeu prefeitos e vereadores que chegavam com problema real de cidade pequena.

Ele não estudou o Legislativo em livro. Aprendeu andando por dentro dele, sem filtro e sem atalho.

10

18 anos, Rotary

Tornou-se o mais jovem rotariano do Brasil e transformou serviço em método.

Foto: projeto comunitário do Rotary

Aos 18 anos entrou para o Rotaract e, logo depois, para o Rotary, tornando-se o mais jovem rotariano do Brasil. Ocupou as diretorias de Protocolo e de Profissionais.

Participou de campanhas de prevenção e saúde para jovens, projetos de orientação de carreira e ações comunitárias em bairros da região metropolitana.

O que ele levou dali não foi título: foi a disciplina de transformar boa intenção em projeto com data, responsável e resultado.

11

20 anos, escolas públicas da região metropolitana

Criou o Projeto Cidadania e levou atendimento gratuito a mais de 3 mil pessoas.

Foto: Projeto Cidadania em escola pública

O Projeto Cidadania nasceu de duas experiências anteriores: o atendimento jurídico gratuito a pessoas em situação de rua e a comissão de assuntos estudantis da OAB, que organizou mais de 800 estudantes de Direito e firmou parcerias com defensoria, ministérios públicos e órgãos estaduais.

O projeto reunia advogados, estagiários e profissionais voluntários para atendimento gratuito dentro de escolas públicas de bairros vulneráveis. Com o tempo passou a incluir atendimento médico e psicológico, palestras de cidadania, encaminhamento para emprego e captação de emendas para reforma das escolas.

Os resultados são verificáveis: quadra reformada, refeitório reformado, laboratório de informática recuperado com novos computadores e painel de grafite no muro de uma escola. Mais de 3 mil pessoas atendidas em cerca de dois anos.

Um caso resume tudo. Uma mãe chegou desolada porque o filho havia sido preso injustamente e ela não tinha como pagar advogado. Ele acreditou nela, mobilizou um professor de Processo Penal que atuou sem cobrar nada, e meses depois o rapaz foi declarado inocente e solto.

Uma família inteira mudou de rumo porque alguém se recusou a dizer que não dava para fazer nada.
12

Direito, da Dom Helder ao IBMEC

Entrou devendo a mensalidade e saiu com diploma, mandato estudantil e método.

Foto: faculdade de Direito, Belo Horizonte

Ele escolheu Direito porque queria fazer política com técnica. Foi aprovado para Ciências Políticas numa universidade federal fora de Minas, mas não tinha como se mudar nem se manter. Inscreveu-se numa faculdade particular de BH, pagou apenas a matrícula e ficou devendo o resto.

Nesse período disputou e venceu a eleição do diretório central de estudantes. Depois, com nova nota do ENEM, conseguiu financiamento integral e concluiu o curso em outra instituição.

Nada disso foi confortável. Foi construído em cima de prazo, dívida e cansaço, e é por isso que ele fala de acesso ao ensino superior com conhecimento de causa.

13

2020, a Communicare

Fundou a própria agência e construiu do zero uma referência nacional em comunicação.

Foto: bastidores da Communicare

Antes de empreender, ele coordenou campanhas eleitorais do começo ao fim, com pouquíssimo recurso e muita organização. Aprendeu na prática o que funciona, o que é desperdício e o que é conversa fiada de marketing.

Em 2020 fundou a Communicare, agência de comunicação política e sindical. O primeiro cliente foi uma chapa sindical do fisco federal. Venceram. O resultado abriu a porta seguinte, e venceram de novo.

De lá para cá a agência cresceu com campanhas sindicais, associativas e eleitorais para prefeitos, vereadores e deputados, e se tornou referência nacional no universo do fisco, com atuação junto à Receita Federal e a receitas estaduais e municipais.

Ele também ajudou a fundar uma associação brasileira de pesquisadores eleitorais e atuou na formação de novos profissionais da área.

Empreender ensinou o que nenhuma teoria ensina: folha de pagamento, imposto, fluxo de caixa e a responsabilidade de sustentar a renda de outras famílias.

Ele não criou uma empresa para ter status. Criou para se sustentar, e transformou em referência.
14

Inovação e tecnologia

Cofundou uma startup de inteligência artificial, aprendeu rápido e seguiu em frente.

Em paralelo à agência, cofundou uma startup de inteligência artificial conversacional, com um assistente capaz de atender com linguagem natural e sem inventar respostas. A empresa foi aprovada num programa municipal de inovação e recebeu apoio para desenvolver o produto.

A operação foi encerrada quando a tecnologia avançou e o diferencial virou commodity. Encerrar na hora certa também é decisão de gestão.

Ficou o aprendizado sobre inovação, produto, ecossistema de startups e regulação de tecnologia, tema que hoje é um dos eixos centrais do projeto dele.

Falhar rápido e aprender é mais inteligente do que insistir no erro por orgulho.
15

2026, a decisão

Depois de mais de dez anos servindo sem cargo, ele decidiu disputar o mandato.

Foto: João Pedro em campanha

A decisão não veio de convite, de vaga aberta nem de cálculo de carreira. Veio da conclusão de que tudo que ele construiu fora do mandato tem um teto, e que esse teto custa caro para quem depende de política pública.

Ele procurou a direção estadual do partido e apresentou o projeto com a franqueza de sempre: jovem, sem herança política, com trajetória verificável e estrutura própria para tocar uma campanha.

Em poucos dias havia gente de várias frentes disposta a construir junto. O projeto deixou de ser dele e virou coletivo.

Ele não foi para a política. Voltou para ela, com currículo feito em quintal, escola pública, gabinete, sala de aula e empresa.

Ele não foi para a política. Voltou para ela. Sempre foi onde pertenceu.

Capítulo 16

Construiu antes de pedir. Serviu antes de candidatar. É diferente porque a história é diferente.

  • Não veio de família política

    Veio de Venda Nova, da escola pública, do ônibus das 4h30.

  • Não passou pela política por cargo

    Passou pelo Rotary, pelo serviço voluntário e pelo Projeto Cidadania.

  • Não criou empresa para ter status

    Criou a Communicare do zero e a transformou em referência nacional.

  • Não decidiu se candidatar por oportunidade

    Decidiu depois de dez anos servindo sem cargo nenhum.

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